Apesar de abundante no RS, carvão mineral não é usado para energia e fertilizantes

Destaque

Fernando Luiz Zancan, presidente da Associação Brasileira do Carbono Sustentável.
FELIPE VIEIRA

O Rio Grande do Sul concentra cerca de 89% das reservas de carvão mineral do Brasil e abriga um ativo bilionário que há décadas permanece praticamente parado. No centro desse debate está a Mina do Leão II, em Minas do Leão, empreendimento que recebeu investimentos públicos e privados robustos, teve estrutura instalada e nunca entrou em operação comercial.

Agora, em meio ao aumento da demanda global por energia, às incertezas geopolíticas e à dependência brasileira de fertilizantes importados, o carvão gaúcho voltou ao centro das discussões econômicas. Um dos principais defensores dessa retomada é Fernando Luiz Zancan, presidente da Associação Brasileira do Carbono Sustentável, que tem percorrido eventos empresariais, fóruns do setor energético e debates públicos defendendo uma nova estratégia para o mineral gaúcho.

A principal tese dele é simples: o Rio Grande do Sul está deixando uma riqueza estratégica parada enquanto o mundo rediscute segurança energética e soberania industrial.

Em palestras recentes, Zancan tem repetido que o Estado “está sentado em cima do seu futuro”. Para ele, o debate sobre carvão no Brasil ainda é tratado de forma simplificada, focado apenas na geração elétrica tradicional, enquanto outros países utilizam o minério em cadeias industriais mais sofisticadas.

A defesa ganhou força após a aprovação da Lei 15.269/2025, que prorrogou até 2040 a operação de termelétricas movidas a carvão nacional, garantindo sobrevida a complexos como a usina de Candiota e reabrindo discussões sobre novos investimentos no setor.

Segundo a Companhia Riograndense de Mineração, a Mina do Leão II possui uma estrutura que inclui dois túneis subterrâneos, aproximadamente seis quilômetros de galerias, silos internos, poço de ventilação com mais de 200 metros de profundidade e prédios industriais. O investimento acumulado supera R$ 1 bilhão em valores atualizados. As reservas estimadas giram em torno de 120 milhões de toneladas, com potencial de produção de até 1 milhão de toneladas por ano.

Para os defensores da retomada, manter esse patrimônio sem utilização representa desperdício de recursos públicos e perda de competitividade.

A discussão, porém, vai além da geração elétrica.

Zancan passou a defender com mais intensidade o uso do carvão como matéria-prima para produção de fertilizantes nitrogenados, tema que dialoga diretamente com o agronegócio brasileiro.

Hoje, o Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes utilizados em suas lavouras, segundo dados da Associação Nacional para Difusão de Adubos e do Ministério da Agricultura e Pecuária. No caso da ureia, insumo essencial para culturas como soja, milho e trigo, a dependência externa é ainda maior.

A guerra entre Rússia e Ucrânia expôs essa fragilidade ao provocar alta internacional de preços e risco de escassez. Rússia e Belarus estão entre os grandes fornecedores globais de fertilizantes, e qualquer crise geopolítica afeta diretamente o custo da produção agrícola brasileira.

É nesse cenário que o carvão gaúcho aparece como alternativa industrial.

A proposta defendida pelo setor passa pela gaseificação do carvão, tecnologia utilizada em larga escala por países como China e Índia.

Em vez de ser queimado diretamente em termelétricas, o carvão é submetido a altas temperaturas e transformado em gás sintético, conhecido como syngas.

Desse processo surgem hidrogênio, monóxido de carbono e dióxido de carbono.

O hidrogênio pode ser utilizado para produzir amônia, base da fabricação de fertilizantes nitrogenados.

N_2 + 3H_2 \rightarrow 2NH_3

A amônia depois pode ser convertida em ureia, um dos fertilizantes mais utilizados pelo agronegócio brasileiro.

2NH_3 + CO_2 \rightarrow (NH_2)_2CO + H_2O

Além dos fertilizantes, o mesmo processo pode gerar metanol, gás sintético e insumos para a indústria química.

Na prática, os defensores do projeto afirmam que o Rio Grande do Sul poderia criar uma nova cadeia industrial integrada entre mineração, indústria química, energia e agronegócio, agregando valor ao carvão em vez de vender apenas matéria-prima.

A questão ambiental segue sendo o principal ponto de resistência.

Entidades ambientais afirmam que ampliar o uso do carvão contraria metas climáticas e amplia emissões de gases de efeito estufa. Organizações como o Instituto Internacional Arayara criticam novos subsídios ao setor e defendem investimentos em fontes renováveis.

Os defensores do carvão respondem com o conceito de “carvão de baixo carbono”.

A proposta inclui tecnologias de captura, utilização e armazenamento de carbono, conhecidas pela sigla CCUS, recuperação de áreas degradadas pela mineração, reaproveitamento do CO₂ gerado na produção de ureia e substituição de modelos antigos de termelétricas por plantas industriais mais eficientes.

Zancan também argumenta que a transição energética global será gradual e que países desenvolvidos voltaram temporariamente ao carvão após crises energéticas provocadas pela guerra entre Rússia e Ucrânia.

O debate no Rio Grande do Sul hoje envolve duas perguntas centrais.

A primeira é energética: faz sentido deixar uma das maiores reservas minerais do país sem uso enquanto o mundo discute segurança no abastecimento?

A segunda é econômica: em um país líder no agronegócio e ainda altamente dependente de fertilizantes importados, faz sentido manter parado um ativo bilionário que pode abastecer energia, indústria e produção agrícola?

Essas respostas ainda dividem ambientalistas, empresários e governos. O consenso, por enquanto, existe apenas em um ponto: a Mina do Leão II segue como um dos maiores ativos minerais parados do Brasil.

Felipe Vieira é jornalista. Instagram, X, Facebook, YouTube

DIÁRIO DO PODER

Deixe uma resposta