BTG e acionistas da Cosan ganharam com ofensiva contra refinaria Refit

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Instalações da Refit.
REDAÇÃO

A ofensiva da Receita Federal contra a Refinaria de Manguinhos (Refit), em razão de débitos bilionários com o fisco, não foi um ato neutro do ponto de vista econômico, segundo observam alguns especialistas do mercado financeiro. Ao atingir um dos últimos players independentes do refino nacional, o Estado produziu um efeito de reorganização do mercado, com vencedores claramente identificáveis. Entre eles, investidores financeiros ligados ao banqueiro André Esteves.

Antes da escalada fiscal, o BTG Pactual e a gestora Perfin já haviam aportado R$6,5 bilhões na Cosan, ao preço de R$5 por ação. A operação deu aos novos sócios uma posição estratégica em um grupo altamente sensível a qualquer redução da concorrência no setor de combustíveis. O investimento foi feito antes, mas o ganho veio depois — quando a máquina estatal entrou em ação contra um concorrente direto.

A partir da intensificação dos atos da Receita — autuações sucessivas, retenções, restrições operacionais e perda abrupta de capacidade competitiva da Refit — o mercado reagiu como se espera em ambientes concentrados: precificando a eliminação prática de um agente incômodo. O resultado foi imediato. As ações da Cosan, ancoradas no preço do aporte, passaram a ser negociadas em torno de R$5,40.

A variação de R$0,40 por papel pode parecer marginal, mas aplicada ao volume da operação (cerca de 1,3 bilhão de ações), representa um ganho bruto de meio bilhão de reais ou cerca de R$520 milhões. Não por inovação, eficiência produtiva ou expansão operacional, mas pela retirada de um concorrente por meio de atos governamentais.

Lado certo da mesa

O ponto central não é a legalidade formal do aumento de capital, mas o nexo econômico entre os fatos. A Receita Federal, ao estrangular uma refinaria independente, alterou a estrutura concorrencial do setor. Essa alteração gerou valor mensurável para grupos integrados e para investidores financeiros já posicionados. Trata-se de um benefício econômico indireto, mas inequívoco.

Na prática, a atuação estatal funcionou como um mecanismo de transferência de valor. O custo foi imposto a um agente específico, submetido a uma pressão fiscal assimétrica. O benefício foi capturado por investidores que nada tiveram a ver com a produção, o risco industrial ou a operação cotidiana do mercado de combustíveis. O ganho aparece limpo, registrado na cotação da bolsa.

Não se trata de alegar conspiração, mas de apontar consequências. Quando o Estado age de forma seletiva em um mercado concentrado, escolhe vencedores. No caso da Refit, a escolha produziu um resultado objetivo: a destruição de um competidor e a valorização de ativos concorrentes em centenas de milhões de reais.

O meio bilhão embolsado desde então por investidores ligados à Cosan não consta em autos de infração, relatórios fiscais ou notas técnicas. Mas está ali, visível, na curva das ações. É o preço econômico de uma política pública que, ao invés de preservar concorrência, reforçou a concentração — e premiou quem já estava do lado certo da mesa.

DIÁRIO DO PODER

 

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