O bode expiatório da república

Destaque

É impossível não perceber o teatro grotesco que se desenrola diante de nós. A esquerda, em sua ânsia de reescrever a história, inventou um golpe — não aquele que gritaram aos quatro ventos, mas o golpe verdadeiro, sutil e eficaz: o de tirar Bolsonaro de jogo.

Criaram um enredo jurídico para transformar adversário político em criminoso, como se o simples ato de existir fosse uma ameaça à nova ordem moral deles. Calaram a voz de quem reuniu milhões nas ruas e o reduziram a um réu sem direitos, um homem confinado pela narrativa, não pelos fatos. É o triunfo do processo sobre a verdade, da vingança travestida de virtude.

Agora, querem mais: querem o corpo. A pressa em mandá-lo à Papuda, antes mesmo do processo finalizado, não é justiça — é exibição. É o troféu que precisam para legitimar o mito que criaram de si mesmos: os defensores da democracia que, ironicamente, aprisionam o adversário político mais votado da história recente. Pedem exames para avaliar se ele “está apto” ao cárcere, como se a fragilidade física fosse um obstáculo menor diante da sanha simbólica de ver o homem, outrora presidente, reduzido a um número, uma cela, um aviso.

E o que dói mais é ver os que dele sugaram prestígio, poder e conveniência agora se afastarem, como ratos em fuga do navio que ajudaram a navegar. São políticos, empresários, comunicadores — gente que um dia o defendeu, hoje se gaba de tê-lo superado.

O Brasil parece viver uma fábula cruel onde a lealdade é moeda podre e o revisionismo, religião. Bolsonaro tornou-se o espelho que reflete a hipocrisia nacional: não é o vilão, é o bode expiatório de uma elite política que precisa destruí-lo para sobreviver.

Juliana Moreira Leite é jornalista especialista em cultura, escritora e curiosa. Nesse espaço vai falar sobre assuntos da atualidades sob a sua visão.

Deixe uma resposta